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A minha mandíbula faz barulho — devo preocupar-me?

Ouvir um “clique” ou estalido na mandíbula ao mastigar, bocejar ou falar é mais comum do que muitas pessoas imaginam. Para algumas, acontece de forma pontual; para outras, torna-se mais frequente e até desconfortável. A dúvida surge quase sempre: será que isto é normal ou é sinal de algum problema?

Na maioria das situações, estes sons não indicam algo grave. Ainda assim, perceber o que está por detrás dos estalidos e, sobretudo, saber quando devem merecer atenção, é fundamental para cuidar da saúde de forma informada e tranquila.

Ao longo deste artigo, explicamos de forma clara o que pode causar estes sons na articulação temporomandibular (ATM), quais os sinais de alerta e como a fisioterapia pode ajudar na sua gestão.

A articulação temporomandibular: uma pequena gigante

A ATM é a articulação que liga a mandíbula ao crânio e permite movimentos essenciais como falar, mastigar, bocejar e engolir. Para funcionar de forma eficiente depende da coordenação entre músculos, ossos, ligamentos e uma estrutura interna chamada disco articular (Okeson, 2019).

Este disco funciona como "amortecedor", ajudando a tornar os movimentos mais suaves. Quando existe uma ligeira descoordenação entre estas estruturas, pode surgir um estalido durante o movimento de abertura ou o fecho da boca. Importa reforçar que este tipo de alteração pode existir sem causar dor ou limitação e, nesses casos, nem sempre tem relevância clínica (De Leeuw & Klasser, 2022).

Porque  é que a mandíbula faz barulho?

Os estalidos na mandíbula podem ter várias origens e, muitas vezes, estão relacionadas com fatores do dia a dia. Entre as causas mais frequentes encontram-se:

  • Tensão muscular, frequentemente associada a apertar ou ranger os dentes.
  • Hábitos repetitivos ou assimétricos, como mastigar sempre do mesmo lado, mascar pastilha elástica, morder objetos ou apoiar o queixo com a mão.
  • Postura da cabeça e do pescoço, que influencia o posicionamento da mandíbula.
  • Alterações no padrão de movimento da articulação, nem sempre associadas a dor.

Mais do que o estalido em si, o mais importante é o contexto em que aparece. Quando ocorrer de forma ocasional, sem dor ou limitação, é geralmente considerado benigno. Por outro lado, se for frequente e acompanhado de dor, sensação de bloqueio ou dificuldade em abrir a boca, pode justificar uma avaliação (Schiffman et al., 2014).

Quando pode tratar-se de uma disfunção temporomandibular?

A disfunção temporomandibular (DTM) refere-se a um conjunto de alterações que afetam a ATM e/ou os músculos e estruturas associadas. Trata-se de uma condição multifatorial, frequentemente relacionada com fatores como stress, bruxismo (apertar ou ranger os dentes), alterações posturais, ou sobrecarga repetida (Greene, 2001; List & Jensen, 2017; De Leeuw & Klasser, 2022).

Alguns sinais podem indicar que a articulação não está a funcionar de forma ideal. Os mais frequentes incluem:

    • Estalidos frequentes, especialmente com dor.
    • Sensação de mandíbula “presa” ou bloqueios de boca aberta.
    • Dificuldade em abrir a boca completamente.
    • Dor na face, cabeça, ouvido ou pescoço.
    • Fadiga ou desconforto ao mastigar.

A presença destes sintomas não significa necessariamente uma situação grave, mas indica que o sistema pode estar em sobrecarga e beneficiar de avaliação e acompanhamento adequados.

Qual o papel da fisioterapia?

A avaliação por profissionais especializados, como fisioterapeutas ou médicos dentistas, permite identificar e compreender os fatores que estão a contribuir para os sintomas.

A fisioterapia é considerada um abordagem de primeira linha em muitos casos de DTM, com evidência de benefício na redução da dor e melhoria da função (Oliveira et al., 2015, Armijo-Olivo et al., 2016). A intervenção é sempre adaptada a cada pessoa e pode incluir:

  • Exercícios específicos para melhorar o controlo e a coordenação da mandíbula.
  • Técnicas manuais para reduzir tensão muscular e melhorar a mobilidade.
  • Intervenção na postura, especialmente da região cervical.
  • Educação para reduzir hábitos de sobrecarga, como o apertamento dentário.

O objetivo é não só aliviar os sintomas, mas também melhorar a forma como a articulação funciona no dia a dia e aumentar a autonomia na gestão da condição.

E se houver apenas o estalido, sem dor?

Quando o estalido surge isoladamente, sem dor, bloqueio ou limitação funcional, geralmente não é necessária intervenção específica. Tal como acontece noutras articulações do corpo, os sons articulares podem existir sem significado patológico (De Leeuw & Klasser, 2022).

Ainda assim, pode ser útil manter alguma atenção a pequenos sinais e hábitos do dia a dia, nomeadamente evitar comportamentos repetitivos de sobrecarga e reconhecer momentos de maior tensão. Pequenas mudanças podem contribuir para a saúde da articulação a longo prazo.

Quando procurar apoio especializado

Os estalidos na mandíbula são frequentes e, na maioria das situações, não representam um problema sério. A atenção deve aumentar quando surgem dor, bloqueios ou limitação dos movimentos, situações em que a avaliação por um profissional de saúde é recomendada.

A fisioterapia oferece uma abordagem baseada em evidência para aliviar sintomas, melhorar a função da ATM e apoiar mudanças de hábitos que promovem a saúde global. Estar informado, reconhecer sinais precoces e procurar apoio quando necessário permite uma gestão mais tranquila e eficaz da saúde.

Se identificas alguns dos sinais descritos neste artigo - como dor persistente, sensação de bloqueio da mandíbula ou dificuldade em mastigar - uma avaliação adequada pode ajudar a esclarecer o que está a acontecer e a definir a melhor abordagem para o teu caso.

No PITZ, realizamos consultas de fisioterapia especializada em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, com uma abordagem individualizada, baseada na evidência científica e centrada na pessoa. O objetivo é compreender a origem dos sintomas, aliviar a dor e melhorar a função, respeitando sempre o teu ritmo e as tuas necessidades.

Fisioterapia nas Disfunções Temporomandibulares e Dor Orofacial

Cuidar da mandíbula é também cuidar do bem-estar geral e da qualidade de vida.

Referências

  • Armijo-Olivo, S., Pitance, L., Singh, V., Neto, F., Thie, N., & Michelotti, A. (2016). Effectiveness of manual therapy and therapeutic exercise for temporomandibular disorders: Systematic review and meta-analysis. Physical Therapy, 96(1), 9–25. https://doi.org/10.2522/ptj.20140548
  • American Academy of Orofacial Pain. (2021). Orofacial pain: Guidelines for assessment, diagnosis, and management. Quintessence Publishing.
  • De Leeuw, R., & Klasser, G. D. (2022). Orofacial pain: Guidelines for classification, assessment, and management. Quintessence Publishing.
  • Greene, C. S. (2001). The aetiology of temporomandibular disorders: Implications for treatment. Journal of Orofacial Pain, 15(2), 93–105.
  • List, T., & Jensen, R. H. (2017). Temporomandibular disorders: Old ideas and new concepts. Cephalalgia, 37(7), 692–704. https://doi.org/10.1177/0333102416686302
  • Okeson, J. P. (2019). Management of temporomandibular disorders and occlusion (8.ª ed.). Elsevier.
  • Oliveira, A. S., Moreira, R. R., & Castro, C. F. (2015). Effect of physiotherapy on pain and jaw mobility in patients with temporomandibular disorders: A systematic review. Journal of Oral Rehabilitation, 42(11), 847–861. https://doi.org/10.1111/joor.12385
  • Schiffman, E., Ohrbach, R., Truelove, E., Look, J., Anderson, G., Goulet, J. P., List, T., Svensson, P., Gonzalez, Y., Lobbezoo, F., Michelotti, A., Brooks, S. L., Ceusters, W., Drangsholt, M., Ettlin, D., Gaul, C., Goldberg, L. J., Haythornthwaite, J. A., Hollender, L., & Dworkin, S. F. (2014). Diagnostic criteria for temporomandibular disorders (DC/TMD) for clinical and research applications. Journal of Oral & Facial Pain and Headache, 28(1), 6–27. https://doi.org/10.11607/jop.1151